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Por que líderes continuam os mesmos após treinamentos

27 de março de 2026
Você RH

Vivemos na era do “evento”. As empresas investem bilhões em workshops de fim de semana, offsites inspiradores e imersões de liderança que prometem transformar gestores em líderes visionários em 48 horas. A euforia da segunda-feira é real. Na quarta, o e-mail transborda. Na sexta, o líder “transformado” já voltou a ser o gestor reativo de sempre – soterrado pelo operacional e pelos velhos hábitos.

O problema raramente está no conteúdo do treinamento. Está na ausência de permanência. Mudar é fácil. O verdadeiro desafio é continuar sendo a pessoa que você decidiu ser quando o caos cotidiano tenta te puxar de volta para os velhos padrões.

 

A tirania do ambiente vs. A vontade do líder

Marshall Goldsmith, o coach de executivos mais influente do mundo, revela em Permanence uma verdade incômoda: o ambiente é o maior sabotador da nossa evolução. Para qualquer líder, esse ambiente é um fluxo contínuo de crises, prazos apertados e demandas urgentes. Esse “clima” molda o comportamento de forma invisível. Sem uma estrutura de proteção, não somos nós que lideramos o ambiente, é ele que nos lidera.

É nesse ponto que entra a contribuição de Lisa Broderick, conselheira de CEOs de empresas da Fortune 500 e coautora do livro. Enquanto Marshall foca no comportamento, Lisa nos convida a examinar nossa relação com o tempo. Ela defende que a sensação de “urgência constante” que paralisa tantos líderes é, na maioria das vezes, uma construção mental – e é ela que nos impede de acessar o melhor de nós mesmos.

A permanência, portanto, não é apenas fazer coisas diferentes. É perceber o tempo de outra forma – uma percepção que dá à mudança o espaço necessário para respirar.

 

O poder das perguntas ativas: O Teste do Esforço

A maior lição que podemos extrair desta obra é a distinção entre perguntas passivas e perguntas ativas.

 

No mundo corporativo, somos condicionados a medir resultados. “O projeto foi entregue?”, “O turnover diminuiu?”. São perguntas passivas: medem o que aconteceu, mas não capturam a essência da liderança. Marshall Goldsmith propõe uma mudança simples e eficaz: as 6 Perguntas Diárias de Esforço.

A lógica é direta: você não controla os resultados, mas controla integralmente o próprio esforço. Cada pergunta começa com a mesma frase: “Eu fiz o meu melhor para…?”

  1. …estabelecer objetivos claros?
  2. …estar totalmente engajado?
  3. …encontrar um significado?
  4. …ser feliz?
  5. …construir relações positivas?
  6. …progredia em direção à conquista de objetivos?

Promover essa prática entre líderes é construir uma cultura de Accountability Radical. Quando um líder avalia, todas as noites, o próprio esforço em ser feliz ou construir relacionamentos, ele deixa de culpar a “cultura da empresa” ou o “time difícil” por seus resultados.

Essa prática gera o que Lisa Broderick chama de “estiramento do tempo”. Ao focar no esforço presente, o líder abandona o modo de sobrevivência – reativo por natureza – e entra no modo de construção, no qual a permanência realmente acontece.

 

 

O convite à prática

Escolha um parceiro de accountability – pode ser um colega, seu cônjuge ou um mentor. Todas as noites, responda a essas seis perguntas dando-se uma nota. Sem desculpas, sem justificativas. Apenas o reconhecimento humilde do seu nível de esforço.

Liderança não é um destino. É um processo de “permanência” em estado de evolução contínua. Como os autores nos ensinam, tornar-se a pessoa que você quer ser é um projeto de vida; permanecer essa pessoa é a prova de fogo do líder de verdade.

Quando um líder é apoiado a permanecer em seu estado de “melhor eu”, ele está, na prática, otimizando o recurso mais caro da companhia: a atenção. Um líder que não sustenta sua mudança drena a atenção do time, gera insegurança e, inevitavelmente, alimenta o turnover.

 

A neurociência da permanência – Por que o cérebro resiste ao “novo eu”

Entender a biologia da mudança é o que separa programas de desenvolvimento que funcionam daqueles que apenas frustram. Se a transformação fosse puramente racional, bastaria ler um bom livro. Mas Marshall Goldsmith e Lisa Broderick nos mostram que a permanência é, antes de tudo, uma batalha contra a fiação neural do nosso cérebro.

Cada vez que o líder responde às “6 Perguntas Diárias”, ele reforça um novo caminho sináptico. Pense no comportamento antigo como uma rodovia asfaltada e no novo como uma trilha no mato. A permanência é o processo pelo qual, pela repetição e pelo esforço consciente, essa trilha se transforma na nova rodovia.

 

A ciência por trás do “Eu fiz o meu melhor para…” é poderosa porque retira o foco da culpa (que ativa o sistema de estresse) e o coloca no controle (que ativa o sistema de recompensa). Quando o cérebro percebe que o esforço está sendo monitorado e valorizado, ele libera dopamina, o que torna a manutenção do comportamento menos árdua e mais sustentável a longo prazo.

 

Duas dicas para você treinar o “Músculo da Presença”

 Microintervenções: encoraje líderes a fazer pausas de “reset perceptivo” de 60 segundos entre reuniões. É um gesto simples que recalibra a percepção do tempo e interrompe o ciclo reativo antes que ele se instale.

Cultura de esforço consciente: a mudança comportamental tem tempo biológico. Não se transforma uma cultura de comando e controle em uma de colaboração sem que os líderes treinem o cérebro diariamente – e isso não é metáfora.

A neurociência é categórica: a constância vence a intensidade. Um workshop de oito horas deixa menos marca na fiação neural do que dois minutos diários de reflexão guiada pelas perguntas ativas de Marshall Goldsmith.

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